segunda-feira, abril 03, 2006

O BIG BROTHER NUM SONHO DE TARDE DE FIM-DE-SEMANA

Num destes dias, depois de um invulgarmente pesado repasto e enquanto relaxava defronte do écran televisivo, senti-me invadir por um não menos invulgar sonho, que, gradualmente, me foi anestesiando o consciente.
Comecei a sentir-me nauseado e esganado...Uma sensação de desfalecimento invadiu-me...
Focando instintivamente o subconsciente para sincronizar as sensações, senti-me enforcado no nó da gravata e, no sufoco, vi perpassar por mim as últimas imagens da vida que sentia fugir-me.
No meio de toda a agitação, pareceu-me ouvir na televisão o som esganiçado da voz da apresentadora do incontornável Big Brother, deixando denunciar o evidente à-vontade com que se move nos entrefolhos rascas do pseudo-concurso.
A verdade é que essa aparição me distraiu do inventário mental com que no fim contabilizamos os nossos pecados e virtudes e devo confessar que foi com agrado que pus de lado as contas que me conduziriam a um mais que esperado saldo negativo, levando-me a reflectir, em alternativa, sobre o fenómeno. Espelho actual do estado e ambição cultural da nossa sociedade, o espectáculo em causa fidelizou multidões de seres que, fugindo às apagadas e vis tristezas da sua vida real, se deixaram envolver nas teias pegajosas daquela pobreza de espírito. Outros, ou porque se assumam como pertença de classes mais intelectualizadas, ou porque tenham ainda algum resquício de pudor, desculpavam a sua adictividade com o interesse da observação de uma experiência de cariz sociológico ou, mais francamente, com a atracção que o sórdido sempre provoca.
De novo, o pequeno écran atraiu a minha atenção subliminar; numa curta interrupção das cenas, para apresentação do noticiário, um qualquer ministro, votado para abandonar uma outra comuna do Big Brother, vociferava vingativo – Hadem pagá-las todas!!!
Com o crescente aperto da gravata senti, talvez como consequência da maior irrigação sanguínea, o regresso do estado analítico e pus-me, de novo, a reflectir obcecadamente sobre o assunto. Ao relembrar a ficção de Orwell-1984 que dera o mote à iniciativa televisiva, todo o enquadramento me parecia essencialmente pavloviano, mas era obrigado a reconhecer nas expressões de cultura suburbana que caracterizavam o pograma, os primórdios da Novilíngua. Se calhar, sabe-se lá, na sua génese estaria já uma produção menor da Pornosec, uma das subsecções do Ministério da Verdade da Grande Fraternidade.
Com a tarracha final à vista, deu-se um mergulho num outro universo de delírio e os reflexos dos écrans passaram a trazer-me boschianas imagens de degradação e inferno. Vislumbrei então, por entre névoas e sombras, um país sem nome, rebaixado e adormecido, sucedâneo espanhol de uma Nação antiga, contraditória e insegura mas orgulhosa e digna, agora subrepticiamente dissolvida num acidulado banho nihilista, agitado por incontáveis borboletas, esvoaçando invertidas sobre o resultado dessa lenta mas inexorável auto-degradação.
Via a deslealdade ser premiada, a honradez e a abnegação ridicularizadas, a corrupção desvalorizada e a pusilanimidade acarinhada. Via as elites servirem-se em vez de servirem, o compadrio sobrepor-se ao mérito e a mediocridade alinhada grassar. Via o herói ser considerado vilão, o crente mentecapto, o honesto incómodo.
Quebrando a monocromia da imagem, eis que surgiu na visão, em tom pastel, uma esfuziante manifestação de onde sobressaíam os casacos de pele de raposa de algumas senhoras que gritavam desalmadamente: Sim à liberalização do aborto!!! Abaixo os touros de morte!!!
À medida que a Salvatore Ferragamo se ia retesando no pescoço, pude ainda ver senhores com ar cinzento e austera compostura dizerem, ao ver-me soçobrar: - um tolo; é a prova evidente dos falhados, dos que querem “o longe, o Mistério, a Aventura, sinal de todo o impossível querer”. Mas, ao contrário do navio do poeta Couto Viana, não vi “o rapazio vir sonhar as linhas ideais de um outro navio, em busca de outras praias, em busca de outro Mar.”. Entrevi, isso sim, na languidez do desfalecimento que precede a morte, uns quantos mitras a fumar umas legais ganzas terapêuticas, curtindo uma boa e disfarçando na conversa sincopada e abstrusa, o despeito por não poderem tripar com a coca com que, mais além, um grupo de queques socialmente se recreavam.
Subitamente, aparecendo sem que me apercebesse de onde, eis que surge o Zé Eduardo Moniz a pedir-me, in extremis, que tentasse conseguir para a TVI, junto do Demo, a cobertura exclusiva da saddamização de Bush pelo rapaz Osama Bin Laden; oferecer-me-ia em troca, numa vida futura, e obviamente em caso de sucesso, um opíparo jantar no Maxims. Pois não é que minhas orelhas ruborizaram, incrédulas e escandalizadas, ao ouvirem os meus já desfalecidos lábios balbuciar: - Qual deles? O de Paris ou o da Praça da Alegria?...
Entretanto, o ruído do camião do lixo do Carmona acordou-me ao passar e pude erguer-se-me do sofá, combalido e confuso...

2 comentários:

O Jansenista disse...

Impagável, só tu, devias embarcar mais vezes nestes exercícios tão coloridos e tão visualizáveis (embora os achaques na tua tenra idade lembrem mais aqueles momentos delirantes do protagonista de Os Sopranos, ou a um classicista como eu lembrem um palimpsesto do Somnium Scipionis de Cícero). Essa dos toiros de morte era comigo? A do Maxims já sei com quem era, vou almoçar com ele amanhã, e havemos de petiscar um arroz de Coelho em homenagem ao Hadem, enquanto criticamos o teu gosto italianizante em gravatas.

[Mamede] disse...

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