terça-feira, agosto 01, 2006

O problema da História e da Verdade

Em acréscimo ao texto do Saraiva postado pelo Manel Azinhal, permito-me complementar com a citação de um insuspeito Eric Blair:

Começa a ouvir-se dizer que a maior parte da História registada é mentira; de facto, sinto-me inclinado a acreditar que a História, na sua maior parte, se apresenta inexacta e tendenciosa. Efectivamente, tornou-se peculiar aos tempos que correm o abandono da ideia de que a História pode ser escrita com Verdade. No passado, as pessoas mentiam deliberadamente ou coloriam inconscientemente aquilo que escreviam, tendo subjacente a verdade pela qual lutavam, sabendo que cometiam bastantes erros e omissões. Mas no fundo, faziam-no, tendo consciente que os factos reais existiam e que era possível descobri-los. E, em termos práticos, havia sempre um conjunto factual com a qual quase todos estavam de acordo. É justamente essa consensual base comum, concomitante ao facto de os seres humanos serem uma espécie animal única, que os totalitarismos e fundamentalismos procuram destruir. O desígnio motivador desta forma de pensar é um mundo em que o Chefe, ou uma qualquer nomenklatura dirigente, possa supervisionar não apenas o presente mas também o registo do passado. Esta prespectiva assusta-me muito mais do que as bombas. E depois das nossas experiências dos últimos anos, fácil é perceber que esta não é uma afirmação gratuita.
GEORGE ORWELL, 1942

6 comentários:

raparigadasrosas disse...

Não li o texto de Manuel Zinhal. Ao ler o seu texto veo-me à memória «Distribuição do tempo» de Julio Cortázar(1914-1984)
«Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preencheram as nossas vidas.
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,
o verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do ~céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua:
Na verdade,tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
té que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez sãp mais os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isso queira significar
Que quando houver um instante de inspiração
Não se leia Rilke, Velaine ou Platão, clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
Do Angélico.
Ou se escute os nítidos

o engenheiro disse...

Quem será esta émula de Santa Isabel?
Importa-se de completar o comentário ? É lindo.

raparigadasrosas disse...

Engenheiro
Esta émula não tem a ver com Napoleão versus Julio César, nem com Luis de Camões versus Vergílio.
Concluir? Em História é dificil! ler o texto que publicou.
Ofereço-lhe um poema de Ahmad Chamlu (1925-2000)
Título «Entre Ser e Parecer»
«Entre ser e parecer receitávamos uma fábula,
Tão leve ao vento como uma pluma-parábola;
No seu sentido jazia todo o nosso viver.
Voaram com ele a pluma e a fábula.»

o engenheiro disse...

" Não fujas à desobriga,
Ó meu poema! cuidado...
Torcido fio quebrado,
Já te perdeste da estriga!
em vez dum Éden, alado
Em moça e ardente cantiga,
Pões-te a arrastr na fadiga
Do velho mundo cansado,

Pões-te a olhar para a tamanha
E tão confusa montanha
Dos dias de hoje, ao poente.

Dize, ao menos! se não viste,
Na triste da agrura triste,
Um veio de água nascente...

A. Corrêa de Oliveira

raparigadasrosas disse...

«A Rapariga das Rosas»
«Tu, que trazes as rosas,é rosas o encanto que trazes.
O que é que vendes? a ti? às rosas,ou às rosas e a ti?».
Dionísio, O Sofista / Grécia (séc. I a.c.)
Tradução de Fernando Pessoa

Bilder disse...

Os senhores do mundo e a novadesordem mundial nos meus blogs.